Homenageado com nome de rua pela vereadora Sandra Picoli, Leopoldo Chiapetti tem causa da morte corrigida e atribuída à ditadura militar
Agricultor foi reconhecido oficialmente como uma vítima do Estado brasileiro durante o período ditatorial ocorrido entre 1964 e 1985
PUBLICADO EM 16/04/2025 - 16:51

             Uma família aguarda aflita durante décadas o reconhecimento oficial de que um de seus entes queridos foi brutalmente torturado e morto por órgãos de repressão da ditadura militar. Esse enredo, que a princípio lembra bastante a trama de “Ainda Estou Aqui”, filme que recentemente rendeu ao Brasil o primeiro Oscar de sua história, também ocorreu em Erechim, e teve seu desfecho na última semana, quando os familiares de Leopoldo Chiapetti se dirigiram até o Cartório de Registro Civil de Pessoas Naturais para retirar sua certidão de óbito atualizada com a verdadeira causa da morte, ocorrida em 1965: “tortura e violência de Estado durante a ditadura militar brasileira”.

            Em 2021, Leopoldo foi homenageado pelo Poder Legislativo erechinense com a denominação de uma rua situada no Loteamento Bem Morar, no Bairro Frinape, a partir de projeto de lei da vereadora Sandra Picoli (PCdoB). Na oportunidade da presença da família – cuja maior parte atualmente reside em outros municípios – em Erechim, a parlamentar fez questão de acompanhá-los durante o marcante momento, que representou uma reparação histórica às injustiças sofridas tanto por Leopoldo quanto por seus descendentes. Na ocasião, estiveram presentes a filha Leda Chiapetti, os netos Dionei Paulo, Alexandra e Orlei Chiapetti e a viúva de um dos filhos, Márcia Chiapetti, além do historiador Guilherme Schons, que participou ativamente da pesquisa e documentação do caso.

Inúmeras torturas e causa da morte inventada

            Agricultor, criador de gado, dono de moinho e serraria, líder comunitário e ex-subprefeito do então distrito de Mariano Moro, Leopoldo Chiapetti foi preso ainda no início da ditadura militar no Brasil, no dia 30 de abril de 1964, por associação ao Grupo dos Onze, organização política não armada, criada e liderada pelo ex-governador Leonel Brizola com o objetivo primordial de defender as reformas de base, em especial a reforma agrária. Já no Presídio Regional de Erechim, ele foi torturado – física e psicologicamente: teve a bexiga perfurada, foi jogado em um tacho de água congelada, submetido a choques elétricos, e outras agressões as quais a filha Leda, então com apenas 10 anos, não gosta de relembrar. Sua morte, aos 59 anos, foi oficializada em 21 de maio de 1965 como decorrente de infeção urinária – causa rechaçada desde sempre pela família, que tinha ciência do que realmente havia acontecido.

“Uma mentira que durou 60 anos”

            Em 2004, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) reconheceu a responsabilidade a responsabilidade do Estado brasileiro pela morte de Leopoldo. A luta seguinte, para que a verdade fosse exposta também em sua certidão de óbito, finalmente teve fim. “É uma sensação de missão cumprida depois de 60 anos. Sinto que estamos honrando meu pai após uma mentira que durou 60 anos. Hoje foi feita a justiça”, disse Leda Chiapetti após receber em mãos a nova certificação. Para o historiador Guilherme Schons, o reconhecimento é de grande relevância tanto para a família quanto para Erechim. “Para a cidade também é importante trazer essa memória, falar a verdade, que a ditadura prendeu, torturou, matou. Muitas pessoas foram assassinadas por essa violência, por isso precisamos falar sobre isso e garantir que nos documentos a verdade esteja dita, que o Leopoldo morreu por que foi violentado, foi o Estado brasileiro que causou a morte dele”, destacou, acompanhado pela vereadora Sandra Picoli, que também salientou a necessidade de manter vivas as histórias dos que foram calados pela ditadura. “Os ditadores não assumiam a responsabilidade por seus crimes. Graças à CEMDP e à Comissão da Verdade, isso se tornou possível, além de expor ao mundo o horror que milhares de pessoas, dentre elas o Leopoldo, viveram naquele período, que elas tiveram seus direitos cerceados, que foram perseguidas por defender a democracia. Felizmente, hoje, podemos defender nossa democracia, e ditadura nunca mais”, enfatizou a parlamentar.

 

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